Conheci o João Heitor Montans Condé na casa dos meus avós maternos, em Altinópolis. Foi na era de 1967, numa tarde deliciosa, como todas, na quadra dos meus quatorze anos.
--- Zé Márcio, tem um moço aí querendo falar com você, disse a minha avó Salomé de Paula Castro adentrando ao quarto, seguida por dois jovens, o Villelinha e o João Heitor.
--- Esse é o João que te falei, Zé, disse o Villelinha sorridente.
Cumprimentei um jovem inglês ruivo, bem vestido, de cabelo repartido ao meio e penteado para trás, com algum tipo de óleo pra realçar o brilho. Portava uma caixa azul, retangular, do tamanho de um pé de cadeira, mas um pouco mais larga e achatada.
--- Tudo bom? Dissemos em simultâneo.
--- Ele toca escaleta, disse o Villelinha enquanto o João abria a caixa azul e tirava um tecladinho creme movido a sopro.
--- Toca aí, vamos ver, disse com o nariz empinado.
Não me lembro se foi o Tema de Lara do dr. Jivago que saiu a primeira vez ou se foi aquela do bessame mucho.
Em pouco estávamos amigos, como até hoje, após quarenta anos de festa, serenata, música, cinema, livros, gibis, cavalo, cozinha, cerveja, pinga, planos, namoradas, ranchadas, praias, fazenda dele, sítio nosso, bares, padrinhos de casamento, filhos, desquite, débâcle, fracasso, êxito, dor nos rins de tanto rirmos um do outro, confidências, competições, piadas e prantos. Não sei o que significa o nosso relacionamento, mas é algo bem maior que amizade.
Dia 24 de Dezembro, véspera de Natal, ele completou 58 anos. Está um pouco descascado e seco, o que se nota pelo excesso de caspa no paletó, mas sempre com disposição para fazer-me rir por horas, dele e de nós mesmos. Não consigo encontrar o João sem darmos umas trinta risadas, das mais longas.
Qualquer hora escreverei com mais detalhes sobre a nossa epopeia, que vai desde a conquista da Gália, com o auxílio de Julio César, outro amigo temperamental, até o último filme que fizemos juntos, Como era Amarelo o Nosso Vale, o qual ele faz o papel de um caçador que, na falta de mulher, resolveu noivar uma onça e se deu bem com ela, ao menos por uma noite.
Essa foi apenas 0,00000001% das façanhas do João Heitor, meu amigo do peito, do mesmo peito que já secou e não dá mais leite, desses que não se encontra facilmente em qualquer praça.
Quem conheceu o João Kota como eu, que teve a oportunidade de viver 40 anos ao lado desse baluarte, viril e conquistador de corações de balzaquianas carentes, desse inglês que cruzou os sete mares a nado, desse tecladista que cantou New York , New York no bar do Roga com o acompanhamento de um violão apenas, levando a platéia ao delírio, desse escritor que colocou Altinópolis no mapa mundi, ganhou o direito de ter saudade, saudade de uma amizade incomparavelmente bela e feliz.
José Marcio Castro Alves, Janeiro de 2011.

